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Ensaio sobre a cegueira Imprimir E-mail
Simone Nardi
Seg, 09 de Março de 2009 00:00
 
"Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara."
Citado no "Livro dos conselhos",
de El-Rei Dom Duarte.

A maioria já deve ter lido ou ao menos ouvido falar do livro "Ensaio Sobre a Cegueira", de José Saramago; vamos apenas pincelar o livro que narra como de repente uma cegueira branca vai se espalhando, contaminando e tomando conta das pessoas; a princípio parece ser incurável e aos poucos toda a humanidade vai ficando cega, reduzida a seres meramente instintivos. Em meio a tanto terror, apenas uma pessoa não perde a visão e é ela, sozinha, que os guia dentro dessa cegueira branca, dentro desse mundo desconhecido e assustador. O filme retrata como o ser humano é capaz de perder anos de civilização ao ser privado de um de seus sentidos. É possível compreender no livro a necessidade dos "cegos", em confiarem naquele único ser que enxerga, de modo a poderem se humanizar e se socializar novamente, pois o governo os envia a um sanatório e, quanto mais pessoas chegam, mais deplorável fica o lugar. Começam a surgir disputas pela comida e pelo domínio do sanatório, situações constrangedoras fazem com que os personagens comecem a se questionar sobre sua dignidade, seu auto-respeito e seu orgulho.

Por trás do livro podemos notar que Saramago não trata apenas da cegueira física, mas da cegueira moral dentro da qual a sociedade se encontra, e sabemos que todo esse orgulho e dignidade são deixados de lado quando o animal humano é posto diante do animal não humano. Em confronto com um ser que ele julga inferior, o animal humano esquece que é civilizado e se bestializa de tal forma que perde sua verdadeira identidade, seu orgulho e seu auto respeito, descendo a níveis que os animais não humanos não conseguem alcançar, a própria "miséria moral". Foi há muitos anos atrás que essa cegueira branca teve início, ao matar no animal humano todo seu senso de moral, compaixão é ética pelos animais não humanos. A ética social, tal como no livro, desmoronou desde então. O animal humano cego pelo orgulho e pela vaidade separou-se da natureza, espezinhou-a e aos seus outros filhos, os animais, com a mesma crueldade com que trata tudo aquilo que lhe é diferente. Nessa sua cegueira, a humanidade é capaz de ignorar o fato de que há uma igualdade senciente entre nós e os animais, é capaz de se manter cega diante de tanto sofrimento, ensaiando o dia em que consiga obter a coragem de enfrentar seus medos em resistir à cegueira a qual a condicionaram.

"O medo cega, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.[...] Quantos cegos serão preciso para fazer uma cegueira, Ninguém soube responder." (J. Saramago)

Quanto ainda será preciso mostrar, demonstrar, expor, falar ou escrever sobre o sofrimento animal, antes que os "cegos da ética" notem que estão errados, que estão com medo e que esse medo os cega. Quanto ainda teremos que pedir para que abram seus olhos, pois somente assim essa cegueira se dissipará e a ética voltará a se fazer parte da sociedade? Esse cegos contemporâneos são cegos do coração e da alma, são cegos da moral e da ética, guiam outros cegos e conhecemos a velha frase que nos diz: "Cegos guiando cegos,ambos cairão no abismo". Já estamos caindo no "abismo" a cada dia que passa, por todo o desrespeito que as pessoas mostram em relação aos animais; é a humanidade quem polui o seu próprio ar, que contamina sua própria água, que apodrece sua própria terra, que desrespeita a eles, os animais não humanos e em igualdade, a si mesma, mas a maioria ainda deseja se manter cega diante disso. Essa cegueira não os deixa ver aonde pisam nem em quem pisam, não os deixa livres para escolherem qual caminho tomar, qual posição escolher.São cegos que temem enxergar, porque fazem tantas coisas ruins aos animais que se envergonham, e se fecham cada vez mais dentro de uma cegueira manipulada e cruel.

"Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem" (J. Saramago)

Essa á a grande parcela da humanidade hoje diante da exploração animal, cegos que vendo, ainda assim fingem não ver, que diante da repulsa que a visão do sofrimento animal acarreta, com uma insensibilidade fora do normal, conseguem ignorar o que lhes mostrado, que hibernam em seus costumes e tradições bárbaras com medo de enxergar a verdade de seus atos cruéis.

"Por que cegamos?"

Porque passamos a nos achar seres privilegiados, seres mais fortes, mais poderosos e, no entanto, nos tornamos seres mais cruéis, mais frios, mais irracionais. Não somos cegos, estamos cegos diante daquilo que não desejamos ver, a agonia animal que praticamos todos os dias.

Assim como os personagens de Saramago perderam o senso de civilidade, hoje, os cegos contemporâneos, perderam o senso de civilidade junto a natureza, junto aos animais, tornaram-se egoístas ao fazerem da Terra, um Planeta para uso exclusivo de animais humanos.Não dividem, não doam, ao contrário, tomam a força, ameaçam, humilham, matam, violam e desmoralizam qualquer ser que se oponha a essa cegueira.

Saramago diz que deseja que seu leitor sofra ao ler o livro, tanto quanto ele sofreu as escrevê-lo. E hoje nós sofremos por essa cegueira que perdura há séculos, séculos de tortura, de morte e muito sangue. Tal como o livro, a vida dos animais tem sido um capítulo brutal e violento, repleto de experiências dolorosas e aflições sem fim.

"Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." (J. Saramago)

O que nos falta para reconhecermos isso, então? O que nos falta para enxergarmos que, o que fazemos com os animais se opõe a qualquer ética que tentemos criar para nos proteger uns dos outros? Que falta para as pessoas abrirem os olhos e enxergarem que os gritos de agonia só irão cessar quando elas mudarem? Não somos cegos, repito, estamos cegos, e ser cego é uma opção.

A cura para essa cegueira nada mais é do que a aceitação verdade, e a verdade é que realmente não somos bons que, embora o veganismo nos guie para a moralização ética, nós nos afastamos desse guia por medo de descobrirmos que não somos aquilo que pensamos que éramos: seres bondosos e racionais. Temos medo, tanto quanto os cegos de Saramago, de caminharmos por esse mundo desconhecido e assustador que é o respeito aos animais não humanos, não estamos acostumados a respeitá-los, somos orgulhosos demais, porém a cegueira nos tem feito viver num mundo igualmente deplorável ao sanatório onde os cegos de Saramago viviam, fingimos não ver, mas sentimos o cheiro da morte e da nossa sujeira. Quando será que a humanidade se desvencilhará dessa cegueira para alcançar a sua lucidez, pois qualquer pessoa que saiba sobre o sofrimento animal e nada faça a esse respeito, está cego e perdeu parte de sua sanidade. Seria irracional nos colocarmos como seres racionais diante da visão do abate de um animal, diante da vivissecção, diante das touradas, bem mais fácil realmente seria essa posição ocupada pela grande massa, a de seres cegos e insensíveis a dor, não há como explicar de outro modo como alguém que tendo conhecimento sobre o que acontece com os animais, não mude, nem tente mudar.

É preciso que nos se humanizemos e nos socializemos novamente com a natureza, com os animais, com o mundo no qual vivemos, precisamos ter coragem para abandonarmos a cegueira de anos e anos de exploração animal, por uma conduta mais digna, pois o ser humano que usa de sua força contra um ser qualquer, não é digno, nem possui qualquer valor moral e os animais humanos necessitam, urgentemente, se moralizarem perante a natureza e sobretudo, diante dos animais não humanos.

"Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara."1

Se podes enxergar e reparar, então que esperas para mudar?

Referências Bibliográficas

 

SARAMAGO, José - Ensaio sobre a cegueira.

Nota

1 Metáfora sobre aqueles que tendo visão, se recusam a ver, pois é bem mais fácil ignorar as coisas que fazemos de mal aos outros seres do que passarmos a nos enxergar como verdugos cruéis.

 

 

NOTA - Tomei a liberdade de publicar, aqui, no Mumbles, este artigo de Simone Nardi, extraído da revista "Pensata Animal", por me parecer ser um daqueles artigos que todos deveriam poder ler.

Esta "nova forma de estar no mundo" enquadra-se perfeitamente naquilo qu eu sinto ser desde que me conheço e refere, ainda, uma das obras de José Saramago que eu li, por várias vezes, e que acabou por originar um trabalho de expressão plástica que aqui vos deixo, em rodapé.

 

 

 

 

 

8 comentários

  • Eu gostei tanto do texto e da análise comparativa feita por Simone Nardi, que não resisti à tentação de publicá-la no Mumbles. Fico muito contente por teres gostado, embora estejamos ambos com muita falta de tempo para grandes leituras.
    Um grande abraço.
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    Fisga 18.03.2009

    Olá amiga João. Mas eu não te disse. Eu guardei o endereço nos meus favoritos para quando estiver mais folgado ir espreitar de novo, eu tenho pena d ter tão pouco traquejo para estas coisas, mas tenho vontade já são alguma coisa. Um abraço Eduardo.
  • Estou mesmo aflita porque a minha Happy Hour já terminou. Obrigada por teres guardado este texto pois ele é interessantíssimo.
    Abraço grande!
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    Fisga 18.03.2009

    Olá amiga João. Tu desculpa a ignorância do macaco. Mas eu não sei o que é a happy Não é nenhuma receita nova de culinária, pois não? Abraço Eduardo.
  • Desculpa, Eduardo. Eu deveria ter-me explicado melhor... Happy Hour é um período de tempo em que sai mais barato navegar na internet.
    Abraço grande.
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    Fisga 19.03.2009

    Olá amiga M. João. Quem nunca se enganou que dê um paço em frente. Eu já sabia que ficava tudo na mesma. Não há crise, eu agora já entendi é uma tarifa mais barata, em certo horário, Ok. Abraço. Eduardo.
  • É isso amigo. Tento fazer o máximo durante a Happy Hour e depois trabalho mais em ficheiros. Não me dá jeito nenhum porque as horas da manhã costumavam ser todas gastas a tratar dos animais, mas vou tentando...
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