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16 Out, 2009

DO BLOGUE DA ANIMAL

Parvoíces e incongruências
(Por Leonel Moura. In “Jornal de Negócios”, 16 de Outubro de 2009,
http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=391563)
 
[…]
 
Esta semana foi também notícia a lei que, a prazo, irá proibir a exibição de alguns animais nos circos e também a venda de algumas espécies a particulares. Trata-se de um pequeno passo quase simbólico, mas mesmo assim de saudar, tendo em conta a realidade de um país onde é generalizado o desprezo pela vida animal.
 
A questão dos direitos dos animais é matéria de civilização humana. À medida que as sociedades evoluem tende a aumentar a consciência da devastação e sofrimento que a acção do homem provoca nas restantes espécies que connosco partilham o planeta. Essa evolução é lenta, mas inexorável. Um dia acabarão as touradas e outros espectáculos similares, depois será a vez da caça - actividade primitiva absolutamente injustificável -, e mais tarde deixará de se comer carne. Todos os que se opõem a um tal curso inevitável limitam-se a ganhar tempo.
 
Como sempre sucedeu com aqueles que apoiavam o circo romano, a escravatura, a tortura, a discriminação racial, a discriminação das mulheres, e tantos outros comportamentos que o tempo e a civilização tornaram indignos.
 
É por isso que alguma argumentação em apoio da referida medida peca por defeito. O Instituto de Conservação da Natureza fala, por exemplo, em perigosidade dos animais e defesa da saúde pública. Ora é evidente que o único animal realmente perigoso nesta história é o homem. Estes circos, cujo modelo ainda não passou da idade média, maltratam e torturam os animais para que estes subam para um banco, dêem uns saltos e passem através de um arco em chamas. Que interesse tem isto? Que ensinamentos, para além da revelação da estupidez humana, se pode retirar de tais exercícios? Acabar com os animais nos circos nada tem pois a ver com a perigosidade dos mesmos, mas com uma questão de decência do comportamento humano.
 
No mesmo plano está a venda de animais para decoração das salas de estar. É incompreensível que alguém possa considerar "natural" manter uma cobra, réptil, aranha ou mesmo o habitual pássaro dentro de uma gaiola ou aquário. Na maioria dos casos argumenta-se com o amor aos animais. Mas se, mantê-los enclausurados e impedidos de prosseguir o seu modo de vida singular é amor, o que seria então ódio?
 
Tudo isto tem a sua génese na incongruente ideia de superioridade da espécie humana. E a história demonstra como sempre que se usa o argumento da superioridade a barbárie e a matança logo emergem. Enquanto o humano se pensar como superior e separado da restante vida, o desprezo, abuso e maltrato irá continuar.
 
O tempo exige uma nova consciência da nossa condição enquanto espécie. Sendo certo que temos características próprias, algumas delas excepcionais, não é menos verdade que cada forma de vida desenvolveu capacidades e comportamentos extraordinários que merecem todo o respeito e admiração. Um dia se perceberá o quanto a vida, toda a vida, é fascinante.

                             

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